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O fim da meia entrada é a entrada de um problema inteiro?


Fonte Freepik



A ALESP - Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo aprovou na noite de ontem um projeto (300/2020) de autoria do deputado Arthur do Val (Patriotas) que faz com que todos as pessoas de zero a 99 anos passem a ter direito ao pagamento da meia entrada em eventos culturais.

Polêmico, o projeto (que ainda depende da sanção do Governador) parece fruto de uma análise rasa e (em termos atuais) “lacradora”. É fato que o método atual da meia entrada vem gerando reclamações por parte dos produtores culturais, mas uma solução simplista e midiática pode trazer resultado ainda pior.

Procurei dados de 2018, para que a pandemia não atrapalhasse os números de ingressos vendidos, e usarei aqui o caso específico dos cinemas, como exemplo.

O Anuário Estatístico do Cinema Brasileiro 2018 (estudo realizado pela Ancine) aponta uma diminuição no número de ingressos vendidos registrada nos anos de 2018 e 2017 em relação a 2015, e uma renda bruta 10% menor que a registrada em 2017.

Em 2018 foram lançados 185 títulos que venderam 24 milhões de ingressos. Só o filme norte americano Os Vingadores, vendeu 14 milhões de ingressos.

No Brasil, 163.454.506 pessoas foram ao cinema, pagando em média R$15,04 por ingresso (que tinha o valor de R$8,61 em 2009).

A venda per capta anual de ingressos de cinema não chega a 1 ingresso por pessoa, estamos em 0,8.

A composição do ingresso do cinema é dividida da seguinte maneira: 52,5% para o exibidor e 47,5% para o distribuidor.

O exibidor paga:

- 10% aluguel

- 2,5% ecad

- 5% ISS

- 35% lucro

O distribuidor paga:

- 6,8% PIS/ COFINS/ CSLL

- 11,8% comissão ao exibidor

- 28,9% comissão do investidor e fundo setorial audiovisual, recuperação de investimento em comunicação e divulgação

A meia entrada é um subsídio cruzado, ou seja: por princípio, quem paga mais, custeia quem está pagando menos. 80% dos ingressos vendidos em 2018 foram a preço de meia entrada. Isso não significa que tenham sido utilizados por idosos ou estudantes, muitas promoções com empresas parceiras ou patrocinadores dão direito a meia entrada. Esse tipo de parceria rende ao exibidor, e isso deixará de acontecer.

Sabidamente, quem pagará por qualquer eventual prejuízo ou perda financeira será o consumidor. Os valores serão diluídos no ingresso e a população seguirá pagando caro para ter acesso à cultura.

A situação piora muito se levarmos em conta o valor estratosférico cobrado pelas apresentações ao vivo (que estão sendo retomadas com o controle da pandemia e avanço da vacinação), mas são cobranças em cascata e tudo tem que ser revisto.

Não adianta um parlamentar, candidato ao governo ou a o que quer que seja, apresentar um projeto de lei simplista que traga uma única rolha para tapar centenas de furos no dique do nosso sistema de acesso à cultura.

2022 se aproxima.


Elaine de Almeida Gomes